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Notícias● Atualizado em 4 de novembro de 2026

Runtime Fee da Unity: a taxa por instalação que revoltou os desenvolvedores

Em setembro de 2023, a Unity anunciou uma cobrança por instalação de jogos. A reação levou a recuos, à saída do CEO e ao cancelamento da taxa um ano depois.

Logotipo da Unity em preto sobre fundo branco

Em 12 de setembro de 2023, a Unity Technologies anunciou a Runtime Fee, uma taxa cobrada dos desenvolvedores a cada instalação de jogos feitos com o motor Unity. A runtime fee da Unity entraria em vigor em 1º de janeiro de 2024 e virou, em poucos dias, a maior crise da história da empresa, com protestos de estúdios grandes e pequenos, recuos públicos e a saída do presidente-executivo.

A Unity é uma das ferramentas mais usadas para criar jogos, principalmente por estúdios independentes e de jogos para celular. Por isso, a mudança não afetava só uma empresa: mexia no orçamento de milhares de equipes que tinham escolhido o motor justamente pelo modelo de licença previsível.

Como funcionaria a taxa por instalação

O plano original previa cobrança de até US$ 0,20 por instalação, dependendo da licença do desenvolvedor. Para quem usava o plano gratuito Unity Personal, a taxa só começaria depois que o jogo passasse de US$ 200 mil de receita em 12 meses e de 200 mil instalações. Nos planos pagos, os limites eram maiores e o valor por instalação, menor.

O problema estava nos detalhes. A cobrança valeria também para jogos já lançados, e os desenvolvedores questionaram como a Unity contaria as instalações, o que aconteceria com reinstalações e quem pagaria a conta em jogos distribuídos por serviços de assinatura. Estúdios independentes passaram a calcular cenários em que um jogo barato ou gratuito poderia gerar uma dívida maior que a receita.

  • Anúncio: 12 de setembro de 2023
  • Início previsto: 1º de janeiro de 2024
  • Valor máximo: US$ 0,20 por instalação
  • Gatilho no plano Personal: US$ 200 mil de receita e 200 mil instalações em 12 meses

A revolta e o primeiro recuo

A reação foi imediata. Desenvolvedores anunciaram que estudariam migrar para outros motores, como Unreal Engine e o gratuito Godot, e vários estúdios independentes criticaram publicamente a empresa. A crise de confiança era maior que a taxa em si: se a Unity podia mudar as regras de jogos já lançados, poderia fazer isso de novo.

Em 22 de setembro de 2023, Marc Whitten, executivo responsável pela área de criação da Unity, publicou uma carta aberta à comunidade que começava com um pedido de desculpas: "Quero começar simplesmente com isto: sinto muito". A nova versão das regras isentava o plano Personal da taxa, elevava o teto de receita desse plano de US$ 100 mil para US$ 200 mil e deixava de exigir a tela "Made with Unity".

Para os planos Pro e Enterprise, a cobrança passaria a valer só a partir da versão de suporte de longo prazo lançada em 2024, sem efeito retroativo. Jogos com menos de US$ 1 milhão de receita em 12 meses ficariam de fora, e o desenvolvedor poderia escolher entre pagar 2,5% da receita ou o valor calculado pelas instalações iniciais, o que fosse menor.

Saída do CEO, demissões e nova direção

Em 9 de outubro de 2023, a Unity anunciou a aposentadoria imediata de John Riccitiello, que comandava a empresa desde 2014. James Whitehurst, ex-presidente da IBM, assumiu o cargo de forma interina. A empresa não atribuiu oficialmente a saída à polêmica, mas a imprensa especializada ligou os dois fatos.

Em janeiro de 2024, a Unity cortou cerca de 1.800 vagas, aproximadamente um quarto do quadro, no que chamou de reorganização da empresa. Em maio, anunciou Matt Bromberg, ex-executivo da Zynga e da Electronic Arts, como novo presidente-executivo, com posse em 15 de maio de 2024. Whitehurst passou a presidir o conselho.

O cancelamento da Runtime Fee em 2024

Exatamente um ano depois do anúncio original, em 12 de setembro de 2024, Bromberg publicou no blog oficial que a Unity estava cancelando a Runtime Fee para clientes de jogos, com efeito imediato. No texto, ele escreveu que a empresa não poderia seguir sua missão "em conflito com nossos clientes" e que a relação precisava ser uma parceria baseada em confiança.

No lugar da taxa, a Unity voltou ao modelo de assinatura por assento, com reajustes:

  • Unity Personal continua gratuito, com teto de receita e financiamento de US$ 200 mil, e a tela "Made with Unity" ficou opcional nos jogos feitos com o Unity 6.
  • Unity Pro subiu 8%, para US$ 2.200 por assento ao ano, obrigatório para quem passa de US$ 200 mil de receita e financiamento anuais.
  • Unity Enterprise subiu 25%, obrigatório acima de US$ 25 milhões anuais.
  • Os novos preços passaram a valer em 1º de janeiro de 2025, e a empresa prometeu discutir reajustes apenas uma vez por ano.

Por que o caso importa até hoje

O episódio mostrou o poder de quem fornece as ferramentas da indústria e o risco de depender de um único fornecedor. Muitos estúdios mantiveram a Unity por custo de migração, mas passaram a avaliar alternativas com mais cuidado, e o Godot ganhou visibilidade como opção de código aberto. Para equipes pequenas, inclusive brasileiras, que pagam licenças em dólar, previsibilidade de custo pesa tanto quanto recursos técnicos.

A Unity seguiu em reestruturação nos anos seguintes, com novos cortes de pessoal e foco em reduzir o número de produtos. A Runtime Fee, porém, não voltou: o modelo atual continua sendo o de assinatura por assento definido no cancelamento de 2024.

Imagem de capa: Unity Technologies / Wikimedia Commons · Domínio público (logotipo de texto)

ABPor André Bayer

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