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Notícias● Atualizado em 4 de novembro de 2026

Stop Killing Games: a campanha que levou o fim dos jogos online à UE

Nascida do desligamento de The Crew, a campanha passou de 1 milhão de assinaturas em 2025, mas a Comissão Europeia recusou criar uma lei em 2026.

Plenário semicircular do Parlamento Europeu com as bancadas dos deputados

Em julho de 2025, o movimento Stop Killing Games ("parem de matar jogos") conseguiu algo que parecia improvável poucas semanas antes: a iniciativa de cidadania europeia "Stop Destroying Videogames" passou de 1 milhão de assinaturas, o mínimo exigido para obrigar a Comissão Europeia a responder formalmente. A campanha nasceu de um caso concreto, o desligamento de The Crew pela Ubisoft, e se tornou a maior mobilização de consumidores de games já levada às instituições da União Europeia.

O caso The Crew, ponto de partida do Stop Killing Games

The Crew, jogo de corrida em mundo aberto lançado pela Ubisoft em 2014, só funcionava conectado aos servidores da empresa. Em 14 de dezembro de 2023, a Ubisoft tirou o jogo das lojas e anunciou que os servidores seriam desligados em 31 de março de 2024, citando restrições de infraestrutura e de licenciamento. Sem modo offline, o jogo ficou inutilizável até para quem havia pago por ele.

Em abril de 2024, o youtuber americano Ross Scott, do canal Accursed Farms, lançou a campanha. A proposta é simples: jogos vendidos não deveriam ser desligados à distância sem que a empresa deixe alguma forma de continuar jogando, como um modo offline ou a possibilidade de a comunidade manter servidores próprios. A campanha não pede que as publicadoras mantenham servidores para sempre.

O caso também chegou à Justiça dos Estados Unidos. Em 4 de novembro de 2024, dois jogadores da Califórnia abriram uma ação coletiva contra a Ubisoft, acusando a empresa de não deixar claro que vendia um produto que poderia parar de funcionar. Na defesa, a Ubisoft argumentou que os compradores não deveriam esperar ser donos do jogo para sempre.

Como a iniciativa passou de 1 milhão de assinaturas

A iniciativa de cidadania europeia recolheu apoios de 31 de julho de 2024 a 31 de julho de 2025. Para ser válida, precisava de 1 milhão de assinaturas de cidadãos do bloco e de mínimos nacionais em pelo menos sete países-membros.

Durante meses, a coleta andou devagar. Em junho de 2025, Scott publicou um vídeo que ele mesmo tratou como a última tentativa, e grandes criadores de conteúdo passaram a divulgar a causa. A marca de 1 milhão veio em 3 de julho de 2025. No dia seguinte, a Video Games Europe, associação que representa as grandes publicadoras no continente, divulgou posição contrária à proposta. Dias depois, o presidente da Ubisoft, Yves Guillemot, disse a investidores que o suporte a jogos antigos não pode durar indefinidamente.

A coleta terminou com cerca de 1,45 milhão de assinaturas. Depois da checagem feita pelos países-membros, 1.294.188 apoios foram validados, número bem acima do mínimo e que afastou o temor de que muitas assinaturas fossem descartadas.

Organizadores da iniciativa Stop Destroying Videogames durante visita à Comissão Europeia
Organizadores da iniciativa na Comissão Europeia, em 2026 — Nicolas Landemard / União Europeia / Wikimedia Commons · CC BY 4.0

O que o Parlamento e a Comissão Europeia fizeram

A iniciativa foi entregue oficialmente em 26 de janeiro de 2026. Em 23 de fevereiro, os organizadores se reuniram com a vice-presidente executiva da Comissão, Henna Virkkunen, e com o comissário Michael McGrath. Em 16 de abril, o Parlamento Europeu realizou a audiência pública prevista nas regras da iniciativa, e o tema foi debatido no plenário em 21 de maio de 2026.

A resposta formal saiu em 16 de junho de 2026 e frustrou a campanha. Na comunicação oficial, a Comissão afirmou que não pode, neste momento, propor uma obrigação legal de manter jogos jogáveis depois que eles deixam de ser vendidos, e sustentou que a legislação europeia de defesa do consumidor já oferece salvaguardas importantes. Em vez de uma lei, Bruxelas assumiu três compromissos:

  • abrir, até o fim de 2026, um diálogo com a indústria e com representantes dos consumidores para criar um código de conduta sobre o "fim de vida" dos jogos;
  • apresentar, também até o fim de 2026, um relatório sobre a aplicação da diretiva europeia de conteúdos e serviços digitais;
  • trabalhar com órgãos de defesa do consumidor para divulgar os direitos que já existem.

O texto completo da resposta está na página oficial da iniciativa no site da Comissão Europeia.

Por que a campanha importa fora da Europa

A iniciativa vale apenas para a União Europeia, mas as grandes publicadoras raramente lançam versões diferentes de um mesmo jogo para cada região. Uma regra europeia sobre o fim do suporte tenderia a afetar o produto vendido no mundo todo, inclusive no Brasil, como já aconteceu com outras normas do bloco na área de tecnologia.

Mesmo sem lei, o Stop Killing Games mudou o tom da discussão. O desligamento de servidores, antes tratado como detalhe técnico, passou a ser assunto de investidores, parlamentos e tribunais, e virou argumento frequente de jogadores sempre que um serviço online é encerrado. Hoje, a campanha acompanha a elaboração do código de conduta prometido pela Comissão, que ainda não foi apresentado, e seus organizadores dizem que vão continuar pressionando por regras obrigatórias.

Imagem de capa: European Parliament / Wikimedia Commons · CC BY 2.0

ABPor André Bayer

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