As demissões na indústria de games viraram rotina desde 2023. Depois do crescimento acelerado durante a pandemia, estúdios e editoras passaram a cortar equipes, cancelar projetos e fechar estúdios inteiros, e a sequência não parou. Segundo o rastreador mantido pelo analista Amir Satvat, foram cerca de 10.500 demissões em 2023, 15.631 em 2024 e 9.197 em 2025. Em 2026, os cortes confirmados já superam o total do ano passado.
Os números variam conforme o rastreador, porque cada um usa um método: alguns só contam anúncios públicos, outros incluem estimativas a partir de reportagens. Mas todos apontam a mesma direção.
Os números das demissões ano a ano
- 2022: cerca de 8.500 demissões, segundo o rastreador do desenvolvedor Farhan Noor.
- 2023: cerca de 10.500, número que foi sendo revisado para cima depois do fim do ano.
- 2024: o pico do período, com 15.631 vagas cortadas no levantamento de Satvat (o de Noor registra cerca de 14.600).
- 2025: 9.197 no levantamento de Satvat. O rastreador de Noor registra número bem menor, cerca de 5.300, o que mostra o peso da metodologia.
- 2026: 9.781 demissões confirmadas até 26 de julho, segundo Satvat, já acima de todo o ano de 2025. Reportagem citando o site GamesIndustry.biz apontou 10.140 confirmadas até 11 de agosto.
A projeção de Satvat para o ano inteiro de 2026 era de 14.259 cortes na atualização de julho, perto do recorde de 2024. Segundo o levantamento, a América do Norte concentra a maior parte dos eventos de demissão, seguida pela Europa.
Os casos que marcaram 2023 e 2024
Em 2023, a Epic Games, dona do Fortnite e do Unreal Engine, demitiu cerca de 830 pessoas, e a Unity entrou em crise depois da polêmica taxa por instalação. Em janeiro de 2024, a Unity cortou cerca de 1.800 vagas, um quarto do quadro.
Ainda em 2024, depois de concluir a compra da Activision Blizzard, a Microsoft fez cortes na divisão de games e, em maio, fechou estúdios da Bethesda, entre eles Arkane Austin, de Redfall, e Tango Gameworks, de Hi-Fi Rush. Foi o ano com mais demissões já registrado no setor.
2025: Microsoft cancela jogos e fecha estúdio
Em 2 de julho de 2025, a Microsoft anunciou cerca de 9 mil demissões em toda a empresa, aproximadamente 4% do quadro global. Na área de games, o chefe de conteúdo do Xbox, Matt Booty, informou o cancelamento de Perfect Dark e Everwild, o fechamento do estúdio The Initiative, que não chegou a lançar nenhum jogo, e o fim de um MMO não anunciado da ZeniMax Online. Equipes da Rare e da Turn 10, de Forza Motorsport, também foram atingidas.
2026: Epic, Xbox e um ano pior que o anterior
Em março de 2026, a Epic Games anunciou o corte de mais de mil vagas e outras medidas de economia de US$ 500 milhões. Em comunicado oficial, a empresa atribuiu a decisão à queda de engajamento do Fortnite iniciada em 2025, que fez as despesas superarem a receita, e afirmou que os cortes não tinham relação com inteligência artificial.
Em 6 de julho de 2026, a Microsoft anunciou 4.800 demissões, cerca de 2,1% do quadro global. Segundo memorando da presidente-executiva da Microsoft Gaming, Asha Sharma, cerca de 1.600 eram do Xbox, com outras 1.600 previstas para os 12 meses seguintes. No mesmo pacote, a empresa decidiu separar quatro estúdios: Double Fine e Compulsion Games voltam a ser independentes, e Ninja Theory e Undead Labs passam a outros donos. A Electronic Arts também fez novas rodadas de cortes no primeiro semestre.
Por que a indústria continua cortando
A explicação mais citada é a correção depois da pandemia. Entre 2020 e 2022, o consumo de games disparou, os juros estavam baixos e as empresas contrataram e compraram estúdios apostando em crescimento contínuo. O crescimento desacelerou, os juros subiram e os custos de produção de jogos grandes continuaram aumentando.
O resultado é um paradoxo: algumas empresas registram receitas recordes enquanto cortam equipes. Uma pesquisa da GDC, conferência de desenvolvedores, apontou que um terço dos profissionais de games dos Estados Unidos foi demitido nos dois anos anteriores. Para quem trabalha no Brasil prestando serviço a estúdios estrangeiros, o efeito aparece em contratos encerrados e em mais concorrência por vagas remotas.
Com quase dois meses ainda pela frente, 2026 já está entre os piores anos da série, e os rastreadores seguem sendo atualizados a cada novo anúncio.
Imagem de capa: Official GDC / Wikimedia Commons · CC BY 2.0




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