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Notícias● Atualizado em 4 de novembro de 2026

Processo contra a Activision Blizzard: o caso que abalou a indústria

Em julho de 2021, a Califórnia acusou a Activision Blizzard de discriminar e assediar mulheres. O caso terminou em acordos e na saída de Bobby Kotick.

Prédio da sede da Activision em Santa Monica, na Califórnia

O processo contra a Activision Blizzard foi aberto em 20 de julho de 2021 pelo Departamento de Emprego Justo e Moradia da Califórnia, o DFEH, hoje chamado Departamento de Direitos Civis (CRD). A ação, que se tornou pública no dia seguinte, acusava a dona de Call of Duty, World of Warcraft e Overwatch de discriminação salarial contra mulheres, retaliação e de manter uma cultura de assédio, descrita no texto como de "fraternidade universitária".

A reação dentro da empresa

A primeira resposta da Activision Blizzard negou as acusações e atacou o órgão estadual, o que irritou os próprios funcionários. Em 28 de julho de 2021, centenas de trabalhadores fizeram uma paralisação em frente à sede da Blizzard, em Irvine, e milhares assinaram cartas cobrando mudanças. Em 3 de agosto, a empresa anunciou a saída de J. Allen Brack, presidente da Blizzard.

A crise se agravou em 16 de novembro de 2021, quando o Wall Street Journal publicou reportagem afirmando que o CEO Bobby Kotick sabia havia anos de casos de assédio na empresa. Funcionários fizeram nova paralisação no mesmo dia, e um abaixo-assinado pedindo a renúncia de Kotick reuniu mais de mil assinaturas. Ele permaneceu no cargo.

Retrato de Bobby Kotick, ex-CEO da Activision Blizzard
Bobby Kotick deixou a empresa no fim de 2023 — Steven Simko / Wikimedia Commons · CC BY-SA 2.0

O caso também chegou aos jogos. Em outubro de 2021, a Blizzard trocou o nome do pistoleiro Jesse McCree, de Overwatch, para Cole Cassidy, porque o personagem homenageava um desenvolvedor citado no processo e que havia deixado a empresa. Em World of Warcraft, referências a outros funcionários envolvidos foram retiradas. Patrocinadores da Overwatch League e da Call of Duty League também reavaliaram seus contratos naquele período.

Acordos com os órgãos reguladores

O caso abriu várias frentes. As principais terminaram assim:

  • EEOC: a comissão federal de igualdade no emprego processou a empresa em setembro de 2021 e anunciou no mesmo dia um acordo de US$ 18 milhões, aprovado pela Justiça em 29 de março de 2022.
  • SEC: em fevereiro de 2023, a Activision Blizzard pagou US$ 35 milhões para encerrar investigação sobre falhas nos controles internos de denúncias de funcionários.
  • Califórnia: em 15 de dezembro de 2023, o CRD anunciou acordo de cerca de US$ 54 milhões, voltado a mulheres que trabalharam na empresa no estado entre outubro de 2015 e dezembro de 2020.

Segundo o comunicado do CRD, cerca de US$ 45,75 milhões iriam para um fundo de compensação às trabalhadoras, e a empresa teria de contratar um consultor independente para revisar políticas de salário e promoção. O texto do acordo registrou que nenhum tribunal ou investigação independente comprovou alegações de assédio sexual sistêmico na empresa, ponto que a Activision Blizzard fez questão de destacar.

Sindicatos e a venda para a Microsoft

O escândalo também impulsionou a organização dos trabalhadores. Em janeiro de 2022, testadores de qualidade da Raven Software, um dos estúdios de Call of Duty, anunciaram a formação de um sindicato, um dos primeiros em uma grande publicadora de games nos Estados Unidos.

Dias antes, em 18 de janeiro de 2022, a Microsoft havia anunciado a compra da Activision Blizzard por US$ 68,7 bilhões. O processo pesou no valor das ações e foi citado por analistas como um dos fatores que abriram caminho para a venda. A aquisição foi concluída em 13 de outubro de 2023.

O que aconteceu depois

Bobby Kotick, que comandava a Activision desde 1991, deixou a empresa no fim de dezembro de 2023, já sob controle da Microsoft. A Activision Blizzard passou a responder à divisão de games da Microsoft, que recebeu também a pressão pelos sindicatos e firmou acordos de neutralidade com organizações de trabalhadores.

Cinco anos depois, o caso é lembrado como um marco na discussão sobre assédio e desigualdade na indústria de games. Ele mostrou que a pressão de funcionários, imprensa e reguladores podia derrubar executivos de uma das maiores empresas do setor e influenciar até o destino de uma aquisição bilionária. Também acelerou a organização sindical em um setor conhecido por jornadas longas e pouca representação.

Imagem de capa: Coolcaesar / Wikimedia Commons · CC BY-SA 3.0

ABPor André Bayer

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